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Caso raro de doença fúngica é tratado e vira estudo

Mais raro que a incidência da doença na população mundial é o sucesso no tratamento e a técnica utilizada, pois a oestomielite fúngica maxilar atin...

03/07/2024 às 23h53
Por: Cidade na Rede Fonte: Agência Dino
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Imagem: Divulgação / Instituto Zétola
Imagem: Divulgação / Instituto Zétola

Um caso raríssimo de osteomielite fúngica no maxilar, causado por mucormicose, surgiu no Paraná. O fungo, que muito rapidamente causa necrose no osso do paciente, aconteceu com um homem de 41 anos, morador de São Lourenço do Oeste (SC). Ele foi atendido e tratado pelo cirurgião maxilo-facial André Zétola, do Instituto Zétola, em Curitiba. Em uma grande parte dos casos, a doença atinge o sistema nervoso central, chega ao cérebro e leva o paciente a óbito muito rápido. O sucesso do tratamento utilizando células-tronco é algo tão raro que chamou a atenção da comunidade médica internacional e está sendo o centro de estudos internacionais.

"Essa doença é extremamente rara e agressiva, necessitando de um tratamento rápido e eficaz. Em um primeiro momento conseguimos debelar a infecção fúngica, preservando a vida do paciente. E num segundo momento, conseguimos reconstruir todo o osso maxilar dele usando suas próprias células-tronco, o que é uma abordagem inovadora e bem-sucedida. Casos assim reforçam a importância de um diagnóstico precoce, além de ação imediata do cirurgião e da habilidade técnica na condução do tratamento”, explicou Zétola.

O paciente, Ricardo Fratin, se emociona ao falar da forma imediata com que foi atendido e que fez toda a diferença para salvar sua vida. “Eu cheguei em Curitiba numa terça-feira 23h. O doutor já estava me esperando com toda uma equipe, me encaminhou imediatamente para exame e para internamento. Às 6h da manhã do outro dia eu estava na mesa de cirurgia operando”, disse o paciente.

A osteomielite fúngica no maxilar é muito rara e causa a necrose do maxilar, trazendo perda óssea e, consequentemente, a perda dos dentes. Os dados sobre a prevalência da doença no mundo não são precisos. Mas estima-se que são no máximo 10 mil casos por ano no mundo, exceto a Índia, onde a prevalência da doença é muito maior por questões de saúde pública locais. A estimativa é da Leading International Fungal Education (LIFE), publicada pelo National Center for Biotechnology Information. E a taxa de mortalidade é alta e pode chegar a 46%.

No Brasil, conforme o Ministério da Saúde, de janeiro de 2018 a junho de 2021 foram registrados 157 casos de mucormicose no país. A estatística brasileira não é só de casos maxilares, mas de todos os tipos de mucormicose em vias nasais e mucosas orofaciais.

Baixa imunidade

A mucormicose, comumente encontrada em ambientes como solo, bolor de pães e vegetais e frutas em decomposição, raramente afeta pessoas saudáveis. Contudo, indivíduos com imunidade comprometida, como aqueles com diabetes, HIV ou em tratamento quimioterápico, são mais suscetíveis. Há também relação da disseminação do fungo em pacientes imunossuprimidos por questões psicológicas, como foi o caso do paciente atendido por Zétola, que teve uma depressão profunda por perdas pessoais.

O homem, na época com 34 anos, chegou ao Dr. Zétola, no ano de 2017, com dor e amolecimento nos dentes. Fazia apenas 21 dias que ele tinha feito uma cirurgia para desvio de septo e sinusite crônica e acredita-se que foi a partir da cirurgia que se instalou a mucormicose. Além da necrose, são também sintomas comuns da doença (comumente confundida com sinusite) a febre, dor de cabeça, letargia, celulite facial, parestesia, secreção nasal e cornetos necróticos.

Neste atendimento inicial, Zétola já constatou pelo menos 10 milímetros de perda óssea no dente central e, após cirurgia para retirada do osso necrótico, o material foi enviado à análise para verificar qual tipo de osteomielite acometia o paciente.

Em poucas semanas, veio o resultado da biópsia, de osteomielite fúngica. A infecção progrediu rapidamente, destruindo o osso maxilar e o assoalho nasal e acometendo todos os elementos dentários superiores. Desta forma, o cirurgião maxilo-facial André Zétola e o otorrinolaringologista Marco Cesar Jorge dos Santos realizaram nova cirurgia de emergência para remover o tecido infectado, no Hospital IPO. Todo o osso maxilar foi removido até a altura do assoalho do seio maxilar e o assoalho nasal, para preservar a vida de Ricardo, pois o fungo chegou muito próximo da cavidade nasal. Sem sustentação óssea, as bochechas do paciente “entravam” na boca e o nariz ficou caído.

Logo após a cirurgia, o paciente foi encaminhado à UTI do Hospital VITA Batel, em Curitiba, na qual o médico intensivista Rafael Deucher lançou mão da Anfotericina. Foram dias de internação em tratamento intravenoso. Após erradicar a infecção, Zétola utilizou um fator de crescimento que atraiu células-tronco do próprio paciente para promover a regeneração óssea. Em um período de seis a oito meses, o osso do maxilar se reconstruiu sozinho, o que permitiu a colocação de implantes dentários.

Mais raro do que a prevalência da doença no mundo foi o sucesso da técnica com células-tronco utilizada pelo cirurgião, para devolver ao paciente a sustentação do rosto e o sorriso, que hoje é extremamente natural e não dá nenhuma pista do que ocorreu.

Estudo internacional

A complexidade e a gravidade deste caso específico tornam-no um marco significativo no campo da odontologia e da cirurgia maxilofacial, destacando a expertise e a inovação do Instituto Zétola e sua equipe no tratamento de condições raras e potencialmente fatais.

A condição da osteomielite fúngica no maxilar é tão rara que virou um caso de estudo internacional, publicado na revista científica Journal of Contemporary Diseases and Advanced Medicine (JCDAM). A primeira etapa do estudo, mostrando o alastramento do fungo antes da segunda cirurgia de remoção óssea, foi publicada na edição de Maio-Agosto de 2022. Já o segundo artigo, mostrando a regeneração óssea por células-tronco e após a colocação das próteses em Ricardo deve ser publicada em breve na revista.

 

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