
No momento em que a Vale assumiu a liderança global da mineração de ferro, superando a companhia australiana Rio Tinto, a mineração em Minas Gerais passa por um período de inflexão. Após décadas marcadas por expansão acelerada, conflitos socioambientais e eventos que evidenciaram fragilidades do modelo tradicional, o setor responde a uma combinação de pressão regulatória, incorporação de tecnologias e mudanças nas expectativas econômicas. O debate sobre o fim das barragens de rejeitos deixou de se restringir ao campo conceitual e passou a orientar decisões operacionais e estratégicas.
A determinação da Agência Nacional de Mineração (ANM) para eliminar todas as barragens construídas pelo método de alteamento a montante, como a estrutura que se rompeu em Brumadinho em 2019, estabeleceu novos parâmetros regulatórios para o setor. O processo envolve etapas técnicas, prazos extensos e revisão de práticas até então adotadas. Nesse contexto, é possível identificar empresas que passaram a antecipar adequações exigidas pela norma.
Minas Gerais tem sido um dos principais cenários dessa transição. O empilhamento a seco, tecnologia que dispensa grandes reservatórios de rejeitos e altera a forma de disposição do material, passou a ser adotado por parte das operações no estado. O método demanda investimentos e mudanças nos processos produtivos, e sua adoção tem sido associada, por gestores do setor, a estratégias de redução de risco operacional.
Algumas companhias incorporaram essa lógica de forma estrutural. A Cedro Mineração está entre as empresas que avançaram no descomissionamento de estruturas mais antigas antes da consolidação do tema no debate regulatório. A barragem da Mina do Gama, em Nova Lima, foi descaracterizada em etapas reconhecidas pela Agência Nacional de Mineração e, posteriormente, pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam).
"Decisões como o descomissionamento da Mina do Gama fazem parte de uma visão estratégica da Cedro, baseada no princípio de que segurança, previsibilidade e responsabilidade precisam estar na origem do projeto mineral. Antecipar soluções sempre foi uma escolha de gestão, porque é isso que sustenta o negócio no longo prazo", afirma Lucas Kallas, presidente do conselho de administração da Cedro Participações.
Segundo a empresa, atualmente a totalidade dos rejeitos gerados em suas operações passa por filtragem e é destinada ao empilhamento a seco, o que elimina a necessidade de novas barragens. A adoção desse modelo ocorreu em um contexto anterior ao endurecimento das exigências regulatórias e passou a integrar o planejamento operacional da companhia.
Esse movimento técnico dialoga com mudanças mais amplas na leitura econômica da mineração. De acordo com estudo da Deloitte, consultoria global nas áreas de estratégia, risco e mercado, o setor passa por uma transição estrutural, na qual fatores como gestão de risco, previsibilidade operacional e adequação a padrões ambientais ganham peso na avaliação das empresas.
A análise aponta que a agenda de descarbonização da indústria do aço e a demanda por cadeias produtivas mais rastreáveis têm influenciado a forma como mineradoras se posicionam no mercado, ampliando a atenção a aspectos além do custo e do volume produzido.
Segundo o relatório Tracking the Trends 2026, da Deloitte, a redução de riscos operacionais e socioambientais deixou de ser tratada apenas como tema de conformidade regulatória e passou a influenciar fatores como acesso a capital e decisões de investimento. O documento indica que escolhas relacionadas à segurança e à previsibilidade das operações têm sido consideradas na avaliação econômica do setor, reforçando uma mudança de lógica na atividade mineral.
Perenidade
A discussão sobre geração de valor também alcança a relação entre empresas e os territórios onde atuam. Em parte do setor, iniciativas voltadas ao apoio a organizações da sociedade civil passaram a ser estruturadas de forma continuada, com foco em desenvolvimento socioeconômico local, substituindo ações pontuais ou restritas à compensação.
Para Lucas Kallas, essas mudanças não se limitam a respostas a eventos passados, mas refletem uma reorganização mais ampla do setor mineral. "Segurança e sustentabilidade não são custos adicionais, são fundamentos da mineração que pretende existir no longo prazo. Quando a empresa investe em tecnologia, reduz riscos e qualifica seus processos, ela cria valor econômico e contribui para uma transição alinhada às exigências atuais do mercado", conclui.
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