
Os Cartórios de Notas do Brasil registraram 38.740 testamentos em 2025, o maior número da série histórica, segundo dados do Colégio Notarial do Brasil. O volume representa alta de 21% desde 2020 e indica que mais famílias passaram a planejar a sucessão de bens.
A organização, no entanto, ainda se concentra no patrimônio e alcança uma parcela pequena da população. A pesquisa Vida e Finitude, da Icatu Seguros, aponta que 67% dos brasileiros refletem sobre a própria finitude, sendo 47% de vez em quando e 20% com frequência. Apenas 16% afirmam ter deixado tudo organizado, enquanto 43% conversaram com a família, mas não organizaram nada. A perda de alguém próximo é o principal motivo para pensar no tema, citada por 67% dos entrevistados, à frente da idade e do noticiário sobre violência, mencionados por 33% cada.
O assunto ganha relevância com o envelhecimento da população. Segundo o Censo 2022 do IBGE, o país tem 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, o equivalente a 10,9% da população, alta de 57,4% em relação a 2010, quando eram 14,1 milhões. São mais avós e bisavós convivendo com netos e bisnetos, e por mais tempo.
Valores e lições de vida no centro do legado
Fora do país, o que não é patrimônio também entra no planejamento das famílias. Um estudo do Merrill Lynch com a consultoria Age Wave, feito com mais de 3 mil adultos nos Estados Unidos, mostra que 59% consideram valores e lições de vida a parte mais importante do legado. Entre os entrevistados com mais de 55 anos, 69% desejam ser lembrados pelas memórias compartilhadas com a família, e 4% pelo patrimônio acumulado. Para 94% deles, uma vida bem vivida significa ter família e amigos que os amam, enquanto 10% citam o acúmulo de riqueza.
O mesmo estudo divide o legado em quatro partes: valores e lições de vida, instruções e desejos, bens financeiros e objetos pessoais. A pesquisa também mostra que a preparação formal fica para trás mesmo no mercado norte-americano: quase metade dos americanos com mais de 55 anos não tem testamento, embora a maioria acredite que deveria ter os assuntos organizados a partir dos 50 anos.
No planejamento sucessório norte-americano, profissionais da área sugerem a chamada ethical will, ou carta de legado, documento sem valor jurídico em que a pessoa registra valores, aprendizados e desejos para quem fica, segundo a publicação Financial Planning. No Japão, o termo shūkatsu, que designa a preparação consciente para a etapa final da vida, popularizou-se a partir de 2009 e incluiu cadernos com recados para a família. O tema ganha peso diante da transferência de US$ 124 trilhões entre gerações projetada pela Cerulli Associates para os Estados Unidos até 2048, em um cenário em que cerca de duas em cada cinco famílias nunca conversaram sobre a passagem de bens, segundo levantamento da Morning Consult.
Mensagens com data de entrega
No Brasil, iniciativas começam a ocupar esse espaço. Em Belo Horizonte, a startup Teuel, cujo nome foi formado a partir dos nomes dos dois filhos do fundador, Gabriel e Mateus, lançou o Projeto 10.000 Mensagens para o Futuro. A proposta é que pais, mães, avós e avôs registrem conselhos, histórias e orientações em texto, áudio, fotos e vídeo, com entrega programada para uma data entre 6 meses e 20 anos à frente, por WhatsApp ou e-mail. A participação é feita pelo site teuel.com/capsula, e a meta do projeto é reunir 10 mil mensagens.
A mensagem pode ser montada aos poucos e só é lacrada quando a pessoa decide. Depois do lacre, não pode ser aberta antes da data definida, nem pela família nem pela empresa. Para que a entrega não dependa de um número que mude com o tempo, o contato de quem vai receber é reconfirmado periodicamente com a família até a data marcada.
"Durante muito tempo, preparar o futuro da família significou cuidar dos bens. As famílias estão percebendo que o que os filhos mais vão querer de volta não está em nenhuma escritura: é a voz, o conselho e a história de quem os criou", afirma Sady Viana, fundador da empresa. Segundo ele, a proposta é que a mensagem seja recebida em marcos como os 18 anos, a formatura ou o casamento, e não em momentos de despedida.
"A gente ensina valores todo dia, mas não sabe o que vai ficar. Quando a mensagem é lacrada, é como uma carta que já foi ao correio: vai chegar, na voz de quem disse, no dia certo", completa o fundador.
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