
Sangramento ao escovar os dentes costuma parecer um problema pequeno. Para quem tem diabetes, porém, cuidar da gengiva é uma ferramenta a mais no controle da doença, e essa é hoje uma das relações mais bem documentadas entre a boca e o restante do corpo.
A periodontite é a forma avançada da inflamação da gengiva e atinge os tecidos que seguram o dente no lugar. Há mais de vinte anos, pesquisadores descrevem a relação entre periodontite e diabetes como uma via de mão dupla: o diabetes descompensado agrava a inflamação gengival, e essa condição mantém o organismo em um estado inflamatório que dificulta a ação da insulina. A boa notícia é que esse circuito também pode ser enfrentado pelo lado da boca.
O que os estudos mostraram
Em 2022, a Cochrane, organização internacional que é referência na avaliação de pesquisas em saúde, publicou uma revisão de 30 estudos com 2.443 pessoas que tinham diabetes e periodontite. Parte delas recebeu tratamento da gengiva; a outra parte não recebeu ou seguiu com o cuidado habitual. Quem ia para cada grupo foi definido por sorteio, o padrão mais rigoroso da pesquisa clínica.
De três a quatro meses depois, quem tratou a gengiva tinha, em média, a hemoglobina glicada 0,43 ponto percentual mais baixa do que quem não tratou. A hemoglobina glicada é o exame que mostra a média do açúcar no sangue nos últimos meses e é um dos principais parâmetros usados para acompanhar o diabetes. Aos seis meses, o benefício ainda aparecia. Os autores classificaram a confiança nesse resultado como moderada.
O sorteio é o que dá peso a esse achado. Aqui, os pesquisadores não apenas observaram pessoas: trataram um grupo e o compararam com o outro. É o tipo de estudo que permite falar em efeito do tratamento da gengiva sobre o diabetes.
Um ganho que se soma
O resultado vem do tratamento da gengiva, somado ao cuidado que os participantes já recebiam. Por isso, a leitura certa é de parceria: o cuidado periodontal não substitui remédios nem o acompanhamento médico, e sim potencializa os resultados deles.
Por que a boca entra nessa conta
A explicação mais estudada é a inflamação. Na periodontite, formam-se pequenas "bolsas" entre a gengiva e o dente, com o tecido interno ferido. Por essas feridas, bactérias e substâncias inflamatórias chegam à circulação e atrapalham a forma como o corpo responde à insulina. Tratar a gengiva, nessa lógica, é retirar uma fonte de inflamação que o organismo carrega todos os dias.
Para quem convive com diabetes, a avaliação da gengiva merece entrar na rotina de cuidados, ao lado das consultas médicas e dos exames periódicos. Gengiva que sangra com frequência, gengiva que parece estar "descendo" (retração), mau hálito que não passa e dentes que amolecem são sinais para procurar um cirurgião-dentista. Apenas os exames clínico e radiográfico definem o diagnóstico e a conduta de cada caso.
Sobre o Dr. Fernando Costa Jr.
É cirurgião-dentista, pioneiro no Brasil em Implantodontia e Laser Fotona na Odontologia. — CRO-SP 38692
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