
A história do Município de Itapemirim, no sul do Estado do Espírito Santo, está profundamente entrelaçada com a história da fé católica. Ao longo de mais de três séculos, a presença da Igreja Católica acompanhou a formação da comunidade local, suas transformações sociais, culturais e políticas e a própria constituição da identidade do povo de Itapemirim.
Nesse contexto, ocupa lugar singular a Paróquia Nossa Senhora do Amparo, cuja trajetória remonta ao século XVIII e que, por sua antiguidade, tradição e continuidade pastoral, constitui-se como a mais antiga paróquia da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim. Sua história é, portanto, parte inseparável da memória religiosa do sul capixaba.
Os primeiros registros da presença católica que se relacionam com a história da atual Paróquia Nossa Senhora do Amparo remontam ao ano de 1625, com a chegada dos primeiros missionários jesuítas à região dos Montes Castelos, atualmente identificada com a região do Caxixe, nas proximidades da Fazenda do Centro, no Município de Castelo.
A ação missionária dos jesuítas marcou o início de uma presença organizada da fé católica naquela porção do território, contribuindo para a formação das primeiras comunidades cristãs e para a expansão da evangelização no interior do Espírito Santo.
Em 1710, a comunidade católica então administrada pelos padres jesuítas foi elevada à condição de Igreja Matriz dos Montes Castelos, sob a invocação de Nossa Senhora do Amparo. A partir desse momento, a devoção mariana sob esse título passou a ocupar lugar central na história religiosa que posteriormente se vincularia ao Município de Itapemirim.
As dificuldades enfrentadas pela população na região dos Montes Castelos, especialmente em razão da insegurança provocada pelos ataques dos indígenas puris e da escassez de alimentos, fizeram com que os habitantes migrassem em direção ao Sítio Itapemirim.
Nesse processo, foram trasladados elementos fundamentais da vida religiosa da comunidade, entre eles a imagem de Nossa Senhora do Amparo, a imagem de São Benedito, a pia batismal, o sino e os paramentos litúrgicos.
No Sítio Itapemirim foi edificado um primeiro templo, no ano de 1765, sob a responsabilidade do Padre Amaro da Silva. A transferência desses elementos sagrados não representou apenas uma mudança física de localidade, mas a continuidade de uma comunidade de fé que carregava consigo sua devoção, sua memória e sua identidade religiosa.
Com o crescimento da povoação nas proximidades da sede do Sítio, registra-se também a existência de um segundo templo, construído décadas antes de 1765, na área central da atual cidade de Itapemirim, cujas ruínas ainda permanecem como testemunho material dessa antiga presença religiosa.
Entretanto, as dificuldades de acesso ao templo, agravadas pelas chuvas e pelas cheias do Rio Itapemirim, dificultavam a participação dos fiéis nas celebrações litúrgicas. A própria expansão da comunidade tornava necessária uma igreja capaz de acolher melhor o povo e estar mais integrada à povoação.
Foi nesse contexto de consolidação da comunidade católica que ocorreu um dos acontecimentos mais importantes de sua história.
Em março de 1769, a comunidade foi constituída oficialmente como Paróquia Nossa Senhora do Amparo, por ato diocesano de Dom Antônio Malheiros Reimão, então 6º Bispo Diocesano do Rio de Janeiro.
Esse acontecimento confere à Paróquia uma importância histórica extraordinária. A criação paroquial, ocorrida ainda no século XVIII, estabeleceu uma estrutura permanente de organização da vida cristã local, com a celebração dos sacramentos, o acompanhamento pastoral da comunidade e a transmissão da fé às sucessivas gerações.
Assim, a história da Paróquia Nossa Senhora do Amparo ultrapassa os limites de uma edificação religiosa. Trata-se da história de uma comunidade de fé que atravessou diferentes períodos da formação do território capixaba e que permaneceu presente na vida do povo de Itapemirim.
Com as dificuldades apresentadas pelo templo então existente, em 15 de dezembro de 1815, mesmo ano da emancipação da Vila, o Presidente da Província, Francisco Alberto Rubim, determinou a construção de uma nova igreja, em localização mais próxima da povoação.
A construção foi realizada com paredes externas de alvenaria e estrutura interna formada por esteios de pau a pique, sendo concluída em 1820.
A rua que se formou diante da nova matriz passou a ser conhecida como Rua Nova, denominação que posteriormente daria lugar ao atual nome de Rua Jerônimo Monteiro.
Apesar de sua localização privilegiada, a edificação sofreu com a falta de conservação. A estrutura de madeira foi severamente comprometida pela ação dos cupins, tornando-se um risco para os frequentadores. Além disso, em menos de três décadas, o espaço já se mostrava insuficiente para acolher a crescente comunidade nas celebrações dominicais.
Mais uma vez, a história da comunidade católica de Itapemirim seria marcada pela necessidade de construir um templo capaz de acompanhar o crescimento da fé e da população.
Em 1846, a Câmara Municipal de Itapemirim determinou a construção de uma nova matriz, em terreno localizado nos fundos da vila.
A pedra fundamental foi lançada em 8 de setembro de 1847, iniciando-se as obras em janeiro do ano seguinte, sob a direção do Frei Capuchinho Paulo Antônio Casas Novas, então pároco do município.
A construção da nova matriz tornou-se um grande empreendimento da comunidade. As pedras utilizadas como lastro dos navios que chegavam ao porto da Barra para comercializar açúcar foram aproveitadas na obra. Na ausência de cimento, a argamassa era preparada com cal, à qual se acrescentava óleo de baleia ou de cação e pó de conchas torradas.
A própria construção da igreja, portanto, guarda em seus elementos materiais a memória econômica e social de Itapemirim, especialmente sua relação com a atividade portuária e com o comércio do açúcar.
O espaço situado diante da nova matriz passou a ser conhecido como Praça Frei Paulo, ou simplesmente Praça da Matriz.
Em 1966, durante a administração do prefeito Airton de Moreno, o espaço recebeu obras de pavimentação, arborização, bancos e banheiros, passando a denominar-se Praça Domingos Martins, em homenagem ao personagem da história brasileira nascido em Itapemirim e participante da Revolução Pernambucana de 1817.
A atual e histórica Matriz de Nossa Senhora do Amparo, terceiro templo da trajetória da paróquia, foi solenemente inaugurada em 15 de setembro de 1855.
A inauguração foi marcada por grandiosa manifestação de fé. Durante a noite, os moradores iluminaram as fachadas de suas casas, dando à vila um cenário especial para os festejos, que se prolongaram por três dias.
As celebrações tiveram início com o traslado das imagens de Nossa Senhora do Amparo e São Benedito, juntamente com os paramentos litúrgicos, para a nova matriz. A condução foi realizada pelo Padre João Phelippe Pinheiro, sucessor de Frei Paulo de Casas Novas.
Mais de duas mil pessoas, entre membros da comunidade, autoridades eclesiásticas e fazendeiros, participaram daquele que foi registrado como um grandioso acontecimento religioso para a época.
A partir daquele momento, a nova matriz passou a constituir um dos principais marcos arquitetônicos, religiosos e culturais de Itapemirim, permanecendo até os dias atuais como testemunho vivo da fé das gerações que construíram e conservaram a comunidade.
A história da Matriz de Nossa Senhora do Amparo também é preservada por diversos acontecimentos e elementos que atravessaram os séculos.
Quando concluída, uma grande cruz de ferro foi colocada na parte superior da fachada da igreja. Em 22 de dezembro de 1877, entretanto, a cruz foi destruída por um raio, sendo posteriormente substituída por uma cruz menor, confeccionada em madeira.
A placa existente acima da porta central apresenta a data de 1853. Embora durante algum tempo pudesse ser interpretada como referência à inauguração da igreja, trata-se de uma homenagem a Frei Paulo de Casas Novas, responsável pela coordenação das obras da matriz e transferido naquele ano para Sergipe.
Outro aspecto significativo da história do templo refere-se à antiga prática de sepultamento no interior das igrejas. Pessoas pertencentes às famílias mais abastadas eram, naquele período, sepultadas dentro do próprio templo, como ocorreu com membros da família Gomes Bittencourt.
Essa prática foi abandonada no início do século XX, em razão das preocupações das autoridades sanitárias da época, que associavam a propagação de doenças aos chamados miasmas provenientes dos sepultamentos.
Em 1949, durante o período em que o Padre Irineu estava à frente da paróquia, o antigo assoalho da igreja foi substituído pelo piso atual. Durante a obra, foram encontrados restos mortais que testemunham essa antiga prática funerária.
A importância da Matriz de Nossa Senhora do Amparo também pode ser percebida em sua relação com acontecimentos da história política brasileira.
Em 7 de fevereiro de 1860, durante sua visita a Itapemirim, o Imperador Dom Pedro II foi recebido na matriz. A igreja serviu como local de acolhida do monarca, uma vez que as obras do prédio da Câmara Municipal ainda não haviam sido concluídas.
Esse episódio demonstra como o templo não era apenas um espaço destinado ao culto religioso, mas também um importante centro de referência da vida pública e social da comunidade.
Em 2026, a Paróquia Nossa Senhora do Amparo alcança uma marca histórica extraordinária: são 257 anos de existência como paróquia, desde sua criação em março de 1769.
No mesmo ano, a atual Matriz de Nossa Senhora do Amparo celebra 171 anos de sua inauguração, ocorrida em 15 de setembro de 1855.
São duas datas que se complementam e revelam a dimensão da história da comunidade: 257 anos de caminhada paroquial e 171 anos da atual igreja matriz.
Ao longo desse período, gerações de homens e mulheres passaram por suas portas. Ali receberam o Batismo, celebraram a Eucaristia, contraíram matrimônio, despediram-se de seus familiares e encontraram consolo, esperança e sentido para suas vidas.
A igreja testemunhou mudanças profundas na sociedade, na cidade e na própria organização política e eclesial do Espírito Santo. Viu nascer e crescer famílias, acompanhou momentos de alegria e de sofrimento e permaneceu como lugar de encontro entre Deus e seu povo.
A longa trajetória da Paróquia Nossa Senhora do Amparo confere-lhe um lugar de destaque não somente na história de Itapemirim, mas na história da própria Igreja Católica no sul do Espírito Santo.
Como a mais antiga paróquia da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, sua existência representa um patrimônio espiritual, histórico, cultural e religioso de grande significado.
Sua história começou antes mesmo da formação de muitas das estruturas que hoje conhecemos. A fé trazida pelos primeiros missionários, a devoção a Nossa Senhora do Amparo, a transferência da comunidade para o Sítio Itapemirim, a criação da paróquia em 1769 e a construção dos sucessivos templos revelam uma continuidade que atravessa séculos.
Por isso, falar da Paróquia Nossa Senhora do Amparo é falar da própria história de Itapemirim. A caminhada da comunidade católica confunde-se com a caminhada do município, estando presente em sua formação, em sua cultura, em sua memória e na vida cotidiana de seu povo.
Mais do que uma construção histórica, a Matriz de Nossa Senhora do Amparo permanece como templo vivo de uma comunidade viva.
Suas paredes carregam marcas de diferentes gerações. Seu altar testemunhou incontáveis celebrações. Seu sino anunciou momentos de festa e de luto. Suas imagens atravessaram períodos de transformação social e permaneceram como sinais da fé transmitida de pais para filhos.
A devoção a Nossa Senhora do Amparo, que atravessou os séculos desde os antigos Montes Castelos até a atual cidade de Itapemirim, continua sendo expressão da confiança do povo na proteção e na intercessão da Mãe de Deus.
Celebrar os 257 anos da Paróquia Nossa Senhora do Amparo e os 171 anos da atual Matriz, portanto, não significa apenas recordar o passado. Significa reconhecer uma história de fé que permanece presente e agradecer a Deus por todos aqueles que, ao longo dos séculos, ajudaram a construir, preservar e transmitir esse patrimônio espiritual.
A Paróquia Nossa Senhora do Amparo permanece, assim, como memória viva da presença da Igreja no sul capixaba, testemunho de uma fé que atravessou gerações e sinal permanente da presença de Deus na história do povo de Itapemirim.
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