
Os créditos de carbono classificados como de alta qualidade pela MSCI tiveram valorização de 75% em 12 meses e chegaram a US$ 14 por tonelada, enquanto os de menor qualidade são negociados abaixo de US$ 2. Os dados foram apresentados por Guy Turner, diretor-geral da área de mercados de carbono da companhia, durante a Climate Week NYC, realizada em Nova York em setembro de 2026, e indicam avanços em três frentes: ampliação dos sistemas regulados, diferenciação de preços por qualidade e mobilização de capital.
Segundo a apresentação, foram registrados US$ 5,5 bilhões em investimentos em contratos futuros e projetos, distribuídos em mais de 200 transações, com um quarto dos recursos destinado a iniciativas de remoção de carbono. Os contratos de compra antecipada de créditos de restauração da natureza monitorados pela MSCI, com entrega prevista para 2035, alcançaram US$ 45 por tonelada, alta de 10% em relação ao primeiro semestre de 2025.
Sistemas regulados ganham escala
No período analisado, a União Europeia passou a incluir integralmente as emissões do transporte marítimo no comércio de emissões do bloco, o EU ETS. A Indonésia avançou em normas para dar clareza e amplitude às negociações de carbono, e o México se comprometeu a lançar um sistema nacional em 2027, com cobertura de 40% de suas emissões.
Na Ásia, a Índia colocou em operação um portal para administrar registros e transações do período de conformidade de 2025 a 2027, que abrange 740 entidades e mais de 700 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e). O Vietnã contabilizou as primeiras operações de seu sistema, referentes ao ciclo 2025 a 2026, e o Japão tornou obrigatório o GX-ETS, que cobre 40% das emissões nacionais de gases de efeito estufa e reúne entre 300 e 400 empresas.
Para Laura Albuquerque, co-CEO da Future Climate e membra do Comitê da Ambição Net Zero da Rede Brasileira do Pacto Global da ONU, durante cerca de duas décadas a defesa desses mercados se apoiou em estudos sobre seu potencial para reduzir o custo de cumprimento das metas climáticas.
"A lógica econômica permanece: direcionar recursos para oportunidades de redução e remoção de emissões que permitam alcançar essas metas com maior eficiência. A diferença é que, hoje, a experiência acumulada oferece dados concretos para orientar decisões de política pública e investimento", afirma.
Demanda corporativa e integridade
No segmento de créditos, os números da MSCI mostram atividade consistente. Cerca de 4 mil empresas definiram metas pela Science Based Targets initiative (SBTi), o equivalente a 4 bilhões de toneladas de emissões, e um quarto delas assumiu compromissos de emissões líquidas zero (net zero). Em 12 meses, mil novos projetos foram registrados, outros 1.150 entraram na carteira em preparação e empresas aposentaram créditos provenientes de 2.850 projetos.
A projeção da MSCI indica que as aposentadorias globais de 2026 devem ficar próximas do volume de 2025, em torno de 200 milhões de toneladas. Na leitura da co-CEO, o sinal mais relevante está na distância de valor entre projetos, que torna a avaliação de qualidade parte central da decisão de alocação de recursos para compradores e investidores.
A executiva observa ainda que a convergência em torno dos Core Carbon Principles, definidos pelo Conselho de Integridade para o Mercado Voluntário de Carbono (ICVCM, na sigla em inglês), cria uma linguagem comum sobre integridade, mas exige que preços e financiamento reconheçam os custos de desenvolvimento.
Capital antes da receita
Para as desenvolvedoras, o cenário evidencia a necessidade de recursos antes da geração de receita. "Projetos exigem recursos para estruturação, implantação, monitoramento, ratings para a verificação ao longo de anos. A valorização dos créditos de qualidade precisa se traduzir em condições de financiamento que permitam produzir essa oferta", diz Laura. Segundo ela, os contratos futuros podem contribuir nesse processo ao conectar a demanda dos compradores ao ciclo de investimento dos projetos.
O Brasil tem diferentes vias de demanda em construção: o mercado voluntário; o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei nº 15.042, de 11 de dezembro de 2024, com os Certificados de Redução ou Remoção Verificada de Emissões (CRVEs); os mecanismos do Artigo 6 do Acordo de Paris; o programa de combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês) previsto na Lei nº 14.993; e o Esquema de Compensação e Redução de Carbono para a Aviação Internacional (Corsia). Na avaliação da executiva, são caminhos com regras e escalas distintas, que precisam ser considerados na estruturação dos investimentos.
Laura pondera que preços, investimentos e aposentadorias não substituem a mensuração dos resultados climáticos, embora demonstrem uma base observável de atividade econômica, demanda e alocação de capital.
"Para o país, a oportunidade está em usar essa experiência para desenvolver um mercado capaz de financiar projetos de qualidade, e o próximo avanço dependerá de transformar os sinais de demanda em capital disponível para quem entrega reduções e remoções verificáveis", conclui a executiva.
Para mais informações, basta acessar: https://futureclimate.com
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