
A curta estadia reúne duas questões centrais para o mercado imobiliário brasileiro: sua participação na economia e as condições para funcionar em condomínios. Enquanto estudo da FGV Projetos estimou em R$ 113,2 bilhões a movimentação econômica associada à atividade do Airbnb em 2025, uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) reforçou a necessidade de compatibilidade entre a exploração dos imóveis e a destinação dos edifícios. Para projetos que pretendem atender a esse público, regras de uso e operação são decisões que precisam entrar no planejamento antes da entrega.
Elaborado a pedido do Airbnb e publicado em setembro de 2026, o levantamento da FGV apontou crescimento de 13,4% na movimentação econômica em relação a 2024. A atividade contribuiu com R$ 62,8 bilhões para o Produto Interno Bruto (PIB), sustentou 703,9 mil postos de trabalho e gerou R$ 31,7 bilhões em renda, segundo as estimativas. Os indicadores medem efeitos sobre a economia e não correspondem ao faturamento da plataforma ou à receita de todo o mercado de locação por temporada.
Os efeitos alcançam negócios fora das acomodações. Segundo a FGV, para cada R$ 10 gastos com hospedagem, outros R$ 45,48 circulam em comércio, alimentação, transporte e entretenimento. O estudo identifica essa movimentação em todas as regiões brasileiras, também fora das grandes capitais, evidenciando a relação entre hospedagem temporária e serviços locais.
Regras de uso e operação
No campo jurídico, o julgamento de 7 de maio de 2026 estabeleceu um parâmetro para a atividade em condomínios residenciais. A Segunda Seção do STJ concluiu que contratos atípicos de curta estadia, caracterizados pela exploração econômica reiterada ou pela profissionalização do serviço, descaracterizam a destinação residencial. Nessa situação, deve haver previsão na convenção aprovada por dois terços dos condôminos.
O tribunal também destacou que anunciar um imóvel em uma plataforma digital não define, por si só, a natureza do contrato. A análise depende das características da atividade e da finalidade do empreendimento. A distinção é relevante para proprietários, compradores e incorporadoras, porque exige avaliar o uso pretendido para além do canal escolhido para divulgar a unidade.
Em Ribeirão Preto, no interior paulista, a Copema informa que considerou a curta estadia desde a concepção da torre WTC Stay, com previsão de regras em convenção e operação profissional. O projeto integra o World Trade Center Ribeirão Preto, complexo planejado para reunir moradia, trabalho, lazer e serviços.
Conforme as informações divulgadas pela incorporadora, a Stay prevê apartamentos de 38 e 60 metros quadrados, gestão profissional de locação, serviços pagos conforme a utilização, espaços compartilhados e área de lazer na cobertura. A proposta combina as características das unidades com uma estrutura prevista para sua administração.
Para Augusto Collaço, diretor comercial da Copema, o planejamento deve considerar tanto as necessidades de quem utiliza o imóvel quanto os critérios de quem compra com intenção de investir.
"Uma atividade que movimentou R$ 113,2 bilhões na economia brasileira em um ano precisa entrar no radar de quem desenvolve produto imobiliário. Para o comprador que pretende investir, a conta vai além do preço de aquisição: envolve custos de operação, ocupação e capacidade de gerar receita. Na Stay, a gestão profissional de locação e os serviços previstos fazem parte da proposta desde a concepção. É um produto pensado para quem quer avaliar o imóvel também como negócio."
O funcionamento depois da entrega
A operação de estadias curtas envolve decisões que afetam a rotina do edifício: administração das reservas, identificação de hóspedes, regras de acesso, limpeza, manutenção e atendimento. Definir responsabilidades para essas atividades é parte do planejamento de um empreendimento que pretende receber usuários com maior rotatividade.
Na torre Stay, a gestão profissional de locação é um dos componentes anunciados pela Copema para organizar esse funcionamento. Sua implantação deve ser compatível com a destinação e os documentos do empreendimento. A previsão de serviços, por sua vez, precisa permitir que o comprador compreenda o que será oferecido e quais custos estarão associados à utilização.
O caso conecta uma decisão de produto no interior paulista a uma discussão nacional sobre o uso dos imóveis. Com a relevância econômica da atividade e os parâmetros estabelecidos pelo STJ, a avaliação de empreendimentos voltados à curta estadia passa também pelas condições de operação. Para quem pretende investir, isso significa examinar regras, responsabilidades e despesas, além da localização e da metragem, antes de tomar a decisão de compra.
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