
Nos últimos anos, a pandemia de coronavírus afetou um dos principais pilares da saúde da população: o sono. Segundo um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo e publicado no periódico Sleep Epidemiology em 2022, 65,5% da população brasileira relata ter problemas com o sono.
Além dos impactos sobre a saúde física, como a maior tendência para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e obesidade, a falta de sono adequado também afeta diretamente o comportamento dos indivíduos.
Uma pesquisa publicada em 2020 por estudiosos da Universidade de L'Aquila, na Itália, mostrou que horas inadequadas de sono impactam diretamente na impulsividade e comportamentos de risco, principalmente em indivíduos que normalmente são bons tomadores de decisão.
Flávia Lippi, especialista em saúde mental, neurociências e comportamento, explica que é preciso entender que o sono é um processo biológico. Em outras palavras, é uma necessidade do corpo, tão importante quanto comer ou tomar água.
“Muitas pessoas buscam dormir pouco para ter mais sucesso, mas isso só vai levá-las à exaustão e acabar com a sua saúde física e mental”, alerta a pesquisadora. “O sono é a base para boas tomadas de decisão na área pessoa e profissional, por isso é essencial que todos possam ter um sono de qualidade”.
Um estudo publicado em 2000 por pesquisadores da Loughborough University mostrou que a privação do sono também afeta a memória, criatividade, capacidade de resolução de problemas complexos e comunicação. Justamente por isso, os pesquisadores chegaram à conclusão de que a privação do sono é uma das principais dificuldades para executivos e soldados de alta patente no exército que precisavam tomar decisões em situações de emergência.
Do ponto de vista financeiro, uma pesquisa de 2017 aponta que o prejuízo econômico da falta de sono até 2030 só nos Estados Unidos está entre 300 e 450 bilhões de dólares – o equivalente ao PIB da Argentina.
Pior qualidade do sono durante a pandemia
Os seres humanos dormem, em média, entre 8 e 10 horas de sono por noite. Porém, alguns aspectos relacionados à pandemia que afetam diretamente a saúde mental, como insegurança, ansiedade sobre a possibilidade de adoecimento, altas taxas de desemprego e até mesmo a adaptação para o home office, impactaram negativamente o estado de mente propício para o sono restaurador.
Segundo Michael Perlis, diretor do Programa de Medicina Comportamental da Universidade da Pensilvânia, é natural as pessoas terem uma qualidade de sono pior quando estão com uma sobrecarga de estresse e ansiedade.
Diante de um cenário como esse, onde não é possível alterar as circunstâncias externas, um caminho possível está no autoconhecimento – mais especificamente, o conhecimento do próprio corpo.
Flávia Lippi enfatiza que conhecer o corpo e os mecanismos biológicos que estão em funcionamento 24 horas por dia é uma das bases do autoconhecimento. A partir do entendimento do funcionamento do próprio corpo e as influências do ambiente, é possível tomar decisões melhores e facilitar um sono reparador.
Para isso, é essencial conhecer o cronotipo individual. Em outras palavras, o cronograma do corpo de cada um. É a preferência biológica por um determinado horário e que dita várias características do funcionamento humano, como o horário em que um indivíduo é mais produtivo e a hora ideal para o descanso noturno.
“Caso alguém não conheça seu cronotipo, existem testes rápidos e acessíveis que podem ser feitos online para ter acesso a essa informação na palma da sua mão”, afirma Flávia Lippi. “Esse é o primeiro passo para organizar a agenda a partir de seus ritmos biológicos e voltar ao equilíbrio natural do corpo”.
Além disso, a pesquisadora faz algumas recomendações gerais que podem ser seguidas por todos que buscam ter um sono reparador.
Ter um sono reparador, de qualidade, que proporcione a energia necessária para o corpo enfrentar os desafios do dia seguinte é o primeiro passo para uma produtividade sem perder a saúde.
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