
O câncer de próstata sempre esteve associado, na percepção popular, a homens acima dos 60 anos. Esse entendimento, porém, vem sendo colocado em xeque por dados cada vez mais consistentes. De acordo com informações mais recentes do Ministério da Saúde, entre 2020 e 2024, o número de atendimentos ligados ao câncer de próstata entre homens com até 49 anos aumentou 32% no Sistema Único de Saúde (SUS). No mesmo período, os casos registrados subiram de 2,5 mil para 3,3 mil. O cenário expõe uma realidade que exige atenção redobrada da saúde pública e da medicina preventiva.
Em homens, o câncer de próstata é predominante em todas as regiões do Brasil, totalizando 72 mil casos novos estimados a cada ano do triênio 2023–2025, atrás apenas do câncer de pele não melanoma, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). No Brasil, o câncer de próstata é o segundo tipo de câncer mais incidente na população masculina em todas as regiões do país, atrás apenas dos tumores de pele não melanoma, e atualmente representa a segunda causa de óbito por câncer nesse público. Diante desse quadro, o diagnóstico precoce se torna um fator determinante para o prognóstico e a qualidade de vida dos pacientes.
"O câncer de próstata é uma doença de progressão lenta na maioria dos casos, mas isso não significa que pode ser ignorado, especialmente quando há fatores de risco presentes. A detecção em fase inicial amplia significativamente as possibilidades de tratamento e aumenta as chances de cura", afirma o Dr. Fernando Marsicano, médico urologista com mais de três décadas de experiência clínica.
Entre os fatores que podem aumentar as chances de um homem desenvolver câncer de próstata estão a idade, o histórico de câncer na família, com maior risco para homens cujo pai, avô ou irmão tiveram a doença antes dos 60 anos, e o sobrepeso e a obesidade, que estudos recentes associam a maior risco para a doença, conforme orienta o Ministério da Saúde. Além disso, o câncer de próstata possui causas multifatoriais, sendo influenciado por fatores como idade avançada, histórico familiar de câncer, obesidade e exposição ocupacional a substâncias cancerígenas, de acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Segundo o Dr. Fernando Marsicano: "O que temos observado na prática clínica é que uma parcela crescente dos homens que chegam ao consultório com alterações no PSA ainda está na faixa dos 40 anos. Parte desse aumento está relacionada a mudanças no estilo de vida das novas gerações, como sedentarismo, alimentação ultraprocessada e obesidade, fatores que interferem diretamente na saúde hormonal e imunológica masculina".
Já algumas mudanças de hábitos ajudam a reduzir os fatores de risco, como controle do tabaco, prevenção ao uso do álcool, prática de atividade física, alimentação saudável e combate ao sedentarismo e à obesidade.
Outro aspecto relevante nesse cenário é a evolução da cultura de prevenção entre os homens mais jovens. Historicamente, o público masculino apresenta resistência à busca por atendimento médico regular. No Brasil, entre 2015 e 2022, apenas 26,1% dos atendimentos individuais na atenção primária do SUS eram de usuários do sexo masculino na faixa etária de 20 a 59 anos, segundo o Ministério da Saúde. Esse distanciamento dos serviços de saúde contribui para que diagnósticos ocorram em estágios mais avançados, quando o tratamento se torna mais complexo e os desfechos clínicos menos favoráveis.
Entre os atendidos pelo SUS, a maioria dos procedimentos correspondeu à quimioterapia, em torno de 84% a 85% dos casos, seguida por cirurgias oncológicas, entre 10% e 12%, e radioterapia, entre 3% e 4%, de acordo com a Agência Brasil. Os números indicam que, mesmo entre os jovens, a doença frequentemente chega ao sistema de saúde já em estágios que demandam intervenções mais intensivas, reforçando a importância do acompanhamento médico periódico como estratégia preventiva.
Para o especialista, "a mudança mais importante que precisamos promover é a cultura do cuidado masculino com a própria saúde. O homem que acompanha sua saúde regularmente, conversa com seu médico sobre histórico familiar e mantém hábitos saudáveis tem muito mais chances de identificar qualquer alteração precoce. Isso vale para todas as faixas etárias, inclusive os mais jovens".
Quanto ao rastreamento, o Ministério da Saúde ressalta que não é indicado para homens assintomáticos de forma geral. No entanto, se o homem tem histórico de câncer na família ou fatores de risco, o rastreamento de rotina pode ser indicado caso o médico avalie a necessidade. Nesse contexto, é fundamental que os homens tenham acompanhamento médico de rotina ao longo da vida para prevenção. A decisão pelo rastreamento deve ser tomada de forma compartilhada entre o paciente e o profissional de saúde, levando em consideração o perfil individual de risco.
"Os exames de sangue PSA e toque retal devem ser realizados com a frequência indicada pelo profissional de saúde. Caso seja encontrada alguma alteração nos exames, a confirmação do câncer de próstata é feita por meio de uma biópsia", destaca o Dr. Fernando.
A recomendação, segundo o Ministério da Saúde é que o diagnóstico precoce seja feito com base em sintomas como surgimento de dificuldade para urinar, demora em começar e terminar de urinar, diminuição do jato de urina, necessidade de urinar mais vezes durante o dia ou à noite e presença de sangue na urina. A partir desses sinais, a orientação é buscar atendimento médico o mais rápido possível.
O crescimento dos casos entre homens jovens reflete, portanto, uma realidade multifatorial que envolve estilo de vida, predisposição genética, ampliação do acesso a exames e uma mudança gradual na postura masculina em relação à saúde.
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